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Aprender, Ensinar e Criar

30/09/21 - 4 minutos de leitura

Em maio deste ano rolou o Scrum Gathering Rio 2021, um dos principais eventos sobre Agilidade da América Latina, que reuniu digitalmente centenas de pessoas de várias regiões para debater e trocar experiências. Tenho muito orgulho de ter participado de todas as edições.

Esta foi a 7ª edição do evento no Brasil, e eu pude apresentar uma palestra sobre as três atividades que um trabalhador do conhecimento deve se dedicar: (1) aprender, (2) ensinar e (3) criar.

Confira a seguir os principais tópicos levantados na palestra!

(1) Aprender

1.1 Maestria

O primeiro aspecto do conceito de aprender é a maestria, isto é, o esforço em se aprimorar naquilo que você faz. Isto gera um ciclo de reforço positivo. Ou seja, quando percebemos que estamos tendo melhores resultados, nossa motivação pela maestria aumenta e, quando nossa motivação aumenta, nossos resultados também ficam maiores.

1.2 Especialista generalista

Existem diferentes perfis de profissionais conforme o domínio das especialidades. A maestria tem a ver com o tipo de perfil em I, ou seja, pessoas que se aprofundam em apenas uma especialidade (vertical).

O especialista generalista, por outro lado, tem o tipo de perfil em T (vertical e horizontal). Isto significa que ele domina uma especialidade e ao mesmo tempo é um generalista, pois aprende sobre as áreas correlatas.

Este tipo de perfil tem sido cada vez mais valorizado pelo mercado de trabalho.

Além do tipo T, existem também outros tipos de especialistas generalistas. Profissionais do tipo π (letra grega "pi") são especialistas em duas áreas diferentes. 

Já os de tipo M conseguem ter três especialidades além de serem generalistas.

1.3 Outros domínios

É importante também aprender sobre outros domínios. Os quatro domínios da Agilidade:

  • negócio: quais são os produtos e serviços, o ROI e priorização, o valor, metas e lançamentos.
  • cultural: motivação, liderança, autonomia, experimentação, interdisciplinaridade e melhoria contínua.
  • organizacional: processos, reuniões, distribuição dos times, fluxo de trabalho, frequência de entrega e local de trabalho.
  • técnico: é a execução em si: qualidade, automação, ferramentas, padrões e maestria

Dessa forma, evoluir nesses quatro domínios também faz parte do processo de aprendizado. 

1.4 Curiosidade do mundo

Para se manter sempre ativo no processo de aprendizado, é preciso ter curiosidade sobre o mundo. Ter metas anuais para aprender coisas novas (um esporte, uma língua, um instrumento musical etc.) é uma boa dica.

Além disso, aproveitar todas as oportunidades em que se possa aprender com as pessoas em situações sociais. Fazer perguntas sobre o trabalho dos profissionais com os quais você interage fora do seu trabalho (garçom, recepcionista, dentista etc.).

1.5 Aprender já pensando em ensinar

Para assimilar melhor os conteúdos, uma boa prática é aprender já pensando em como seria ensinar aquilo para outras pessoas. Mesmo que isso nunca aconteça.

Identificar os padrões no momento do aprendizado pensando no momento de ensinar ajuda a assimilar os conteúdos de forma mais efetiva.

1.6 Níveis de consciência

Quando aprendemos seguimos um modelo de 4 níveis de consciência:
incompetência inconsciente ("parece que vai ser fácil"); incompetência consciente ("mais difícil que imaginei"); competência consciente ("me concentrando consigo fazer"); competência inconsciente ("já executo sem pensar").

"Temos um maior grau de absorção de um conhecimento novo quando ensinamos. Então, estou sempre pensando em ensinar quando estou aprendendo algo novo."

(2) Ensinar

2.1 Camadas de abstração

Para poder ensinar é preciso identificar padrões, nomenclaturas, metáforas, de modo que a pessoa se torne capaz de criar uma síntese do conhecimento. Ou seja, precisamos ir além dos 4 níveis de consciência que vimos no item 1.6.

Por meio dessas novas conexões é possível avançar em camadas cada vez mais profundas de abstração. 

Com isso, estamos prontos para transmitir o conhecimento conforme a necessidade de quem está aprendendo.

2.2 Oportunidades para ensinar

Ensinar não precisa necessariamente ser uma relação formal de sala de aula. Em diversos momentos do dia a dia é possível ensinar algo para as pessoas.

Conversas, reuniões e trabalho em equipe, por exemplo, são momentos muito propícios para ensinar.

2.3 Didática

Para ensinar é preciso desenvolver uma boa didática. Saber apresentar o conteúdo de forma interessante para ajudar na assimilação do interlocutor.

Se você explicar alguma coisa à uma pessoa genuinamente interessada e ela não entender, a falha é sua. Por isso, é preciso saber como dividir os assuntos para explicar de maneira fácil.

2.4 Sistema puxado de ensino

Esse sistema, inspirado em dojos, serve para dar estímulo ao ensino. O conteúdo didático é puxado pela prática. 

A partir desse estímulo, as explicações são feitas conforme as perguntas vão surgindo. Aqui a prática do storytelling faz toda a diferença para conectar os assuntos.

"Todos os conhecimentos de habilidade que somos capazes de fazer hoje foram construídos em cima de camadas de abstração que fomos adquirindo enquanto seres humanos." 

(3) Criar

3.1 Mente aberta

Para criar é preciso ter mente aberta e pensamento positivo. 

Elimine os pensamentos que tenham vieses negativos ou carregados de julgamento como: “Não sou criativo” ou “Essa ideia não é boa, nem vou falar”.

3.2 Alinhar assuntos diferentes

Uma boa forma de criar, é conectando ideias de diversos assuntos. Quase todas as ideias da humanidade foram criadas ao alinhar assuntos diferentes. 

Mesmo que as fontes pareçam não ter nada a ver, sempre é possível encontrar relações que podem gerar ideias totalmente novas.

3.3 Criação coletiva

Para a criação coletiva existem diversas técnicas que ajudam a destravar o processo criativo.

O brainstorming é uma das mais consagradas dessas técnicas, principalmente em equipes multidisciplinares. No entanto, é importante observar algumas dicas para aproveitar o potencial dele:

  1. não tenha filtros na hora de dar ideias;
  2. ideias loucas são bem-vindas;
  3. construa em cima das ideias dos outros;
  4. é preciso ter quantidade;
  5. use post-its com palavras-chave.

3.4 Observar oportunidades para criar

Sempre que observarem novas dores ou problemas, utilize esta oportunidade para criar. Mas antes de tentar criar uma solução geral, comece pelo particular.

3.5 Validação

Não basta apenas criar, é preciso colocar as ideias à prova. Depois que algum produto foi criado ele precisa ser testado.

Veja como a solução funciona com uma pessoa e aprenda com isso. Depois com uma próxima, para depois sim tentar aplicar com diversas pessoas.

(4) Coordenar

Além de aprender, ensinar e criar, o trabalhador ou trabalhadora do conhecimento também precisa coordenar o trabalho. Diferente das outras 3 atividades, essa é uma atividade que não agrega valor diretamente, por isso, ela deve ser considerada um desperdício e deve ser minimizada. Porém, jamais será eliminada.

Mesmo que você trabalhe sozinho ou seja autônomo de produto digital, você fará alguma coordenação, ou com os seus clientes ou com os seus fornecedores, por exemplo.

Dicas para diminuir o custo de coordenação entre os trabalhadores do conhecimento:

  • trabalho em par;
  • times menores: para diminuir as interações e por consequência o esforço de coordenação;
  • reuniões melhores: ter hora para começar e hora para acabar, ter um facilitador;
  • delegar: para não acumular muitas tarefas de coordenação;
  • redução de dependência externa: para não precisar esperar em uma fila de demandas. 

Gostou da minha palestra? Então baixe de graça a versão quase completa do livro de minha co-autoria, Castelo de Mentiras. Aproveite, pois quando estiver com a versão final pronta a versão gratuita cessará. No livro, o Avelino Ferreira e eu falamos dos problemas do modelo projetizado e seu impacto no desperdício de custo e de tempo de vidas humanas.

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Escrito por

Rodrigo De Toledo

Co-fundador e Trainer na K21


Rodrigo de Toledo é co-fundador da K21, Certified Scrum Trainer (CST) pela Scrum Alliance, Kanban Coaching Professional (KCP) e Accredited Kanban Trainer (AKT) pela Kanban University, além de Licensed Management 3.0 Facilitator. Com Ph.D na França, possui diversos artigos internacionais e lecionou por doze anos na PUC-Rio e na UFRJ, duas das principais universidades da América do Sul.
Esta postagem se encontra sob a licença Creative Commons Attribution-NonCommercial-ShareAlike 4.0 International License.

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